A transformação digital acelerada do sistema financeiro brasileiro estabelece que a segurança e a resiliência sejam tratadas como decisões estratégicas de alto nível corporativo. No Febraban Tech 2026, debates sobre o setor destacaram que a sustentabilidade dos negócios exige uma orquestração ativa e integrada entre infraestrutura de rede, nuvem, cibersegurança, governança de dados e Inteligência Artificial (IA).
Essa convergência tecnológica atua como um sistema único para reduzir a complexidade operacional, transformar tecnologia em confiança operacional de ponta a ponta e sustentar serviços cruciais, como o processamento contínuo do Pix, a aprovação de crédito e o bloqueio de fraudes em tempo real.
Segundo a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária de 2026, 80% das instituições enxergam a segurança como diferencial competitivo, mas a resiliência ainda aparece em quinto lugar entre os benefícios percebidos na adoção da nuvem. O cenário atual mostra que a continuidade operacional deixou de ser apenas uma preocupação periférica ou técnica para se tornar o próprio núcleo dos negócios financeiros.
Resiliência como pilar estratégico de negócios
A necessidade de elevar a tecnologia ao centro das decisões das companhias passa pela conscientização das lideranças e do conselho de administração.
E a evolução das arquiteturas digitais exige que a mitigação de riscos operacionais e a capacidade de manter o funcionamento ininterrupto estejam integradas ao planejamento corporativo de longo prazo.
“As instituições financeiras, os bancos, as IPs, elevaram a questão de tecnologia não mais como algo a ser tratado internamente na instituição, mas sim como o próprio negócio das instituições”, afirmou o chefe da área de tecnologia do Banco Central (BC), Caio Moreira Fernandes. Sobre a abrangência dessa visão, ele acrescentou que o assunto deve chegar à diretoria colegiada, reforçando que vai além do operacional.
A disponibilidade constante dos canais digitais é o elemento que sustenta a relação com clientes, governos e a sociedade. A resiliência orienta diversos processos.
“A questão da resiliência é também central nas funções dos bancos: tanto para a definição de investimentos, quanto para a definição de estratégias de como administrar e definir processos que previnam incidentes”, afirmou o diretor do Itaú Unibanco, Adriano Volpini, explicando que em vários momentos, os problemas de resiliência afetam o setor como um todo.
A orquestração por parceiros estratégicos
A sustentação dessa estrutura demanda parceiros capazes de orquestrar e integrar soluções tecnológicas complexas em uma única arquitetura. A transformação digital do setor não depende mais de uma única tecnologia isolada, mas da capacidade de combinar diferentes ferramentas para acelerar resultados de negócio e simplificar a operação.
Por ser um ecossistema complexo – com picos intensos de tráfego, integrações via interfaces de aplicação (APIs), gestão de terceiros e automação via IA –, a orquestração assume papel central para garantir a estabilidade e a inovação em escala.
A Diretora Executiva para o Mercado Financeiro da Claro empresas, Raquel Possamai, ressaltou essa evolução nas soluções oferecidas ao mercado pela própria companhia. Cerca de 10 anos atrás, a empresa atuava como operadora de telecom, evoluindo para facilitadora da transformação digital e, atualmente, posicionando-se como orquestradora desse ecossistema.
Por trilhar esse caminho, a executiva acredita que a resiliência deixou de ser uma discussão técnica e passou a se tornar uma decisão estratégica corporativa, com o objetivo de manter a estrutura o mais forte possível para que a operação não pare em definitivo. Nesse ponto, a atuação conjunta de especialistas é a grande chave.
“Nenhum player, por maior que seja, consegue garantir resiliência ou cibersegurança sozinho. O ecossistema é interdependente, e a responsabilidade precisa ser compartilhada entre instituições, reguladores e parceiros estratégicos”, disse a diretora.
Além disso, todos os parceiros e fornecedores precisam da capacitação necessária para que as entregas sejam de alto nível e previnam crises. Volpini afirma que os bancos buscam parceiros que entreguem o mesmo nível de exigência da instituição, já que a falta de maturidade gera custos elevados.
“A maturidade do mercado não pode ser construída na reação ao problema. O papel da orquestração é estruturar a arquitetura de conectividade e segurança antes que o incidente aconteça”, pontuou Raquel.
Arquitetura Zero Trust e governança contínua
A expansão das interconexões no ecossistema financeiro exige uma mudança direta no modelo de proteção: o ambiente migra de perímetros tradicionais para a arquitetura Zero Trust (Confiança Zero).
Sob essa diretriz, nenhuma conexão ou acesso é considerado seguro por padrão. A gestão de infraestrutura passa a adotar autenticação contínua, segregação rígida de permissões e procedimentos automatizados de contenção integrados a soluções inteligentes.
“Nós liberamos para que os processos aconteçam, mas supervisionamos muito de perto para identificar qualquer anomalia. E dentro dessa governança, a segregação de acessos é relevante para minimizar impactos”, explicou Volpini sobre a atuação em ambientes digitais e unidades internacionais.
Essa governança técnica ganha efetividade quando aliada à disciplina operacional das equipes e parceiros. “Segurança é método, disciplina e controle. Se você não tem essas três coisas, fica vulnerável”, reforçou o chefe da área de tecnologia do BC.
Dessa forma, a atuação conjunta entre supervisão, parceiros estratégicos (capazes de conectar redes, nuvem, IA e cibersegurança) e instituições financeiras garante a identificação de pontos de fragilidade em tempo real, sustentando a confiança de todo o setor.
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