As gerações Z e millennial estão mudando a relação com o trabalho à medida que avançam na carreira. Diante da pressão econômica, os jovens passaram a valorizar a estabilidade e a adiar grandes decisões profissionais, inclusive a de assumir cargos de liderança. É o que mostra a 15ª edição da pesquisa 2026 Gen Z and Millennial Survey, da Deloitte, que ouviu quase 23 mil pessoas em 44 países. No Brasil, foram 804 participantes, sendo 501 da geração Z e 303 millennials.
A maioria dos brasileiros entrevistados (60%) buscam progresso constante na carreira. O interesse em assumir cargos de liderança em algum momento também é alto, com 69% da geração Z apontando a pretensão e 74% dos millennials. Mesmo assim, a posição de liderança deixou de ser um foco, já que apenas 6% da gen Z e 8% dos millennials apontam essa prioridade.
Para Roberta Yoshida, sócia-líder de soluções de human capital e líder de people & purpose da Deloitte, o dado não revela contradições, mas um reflexo das mudanças que vêm acompanhando as gerações. Segundo a executiva, no cenário econômico atual somado às mudanças tecnológicas, os jovens estão optando por sequenciar a ambição, investindo em habilidades, estabilidade e bem-estar antes de se comprometer com caminhos que possam se mostrar insustentáveis. Ela diz ainda que a mudança não reside na quantidade de pessoas que almejam o cargo de liderança, mas na escolha do momento da vida para persegui-lo.
A insegurança econômica aparece como pano de fundo dessas escolhas. No Brasil, 55% da geração Z e 52% dos millennials revelaram ter adiado alguma ambição em razão da situação financeira. Cerca de um terço dos brasileiros entrevistados e quase metade dos participantes globais diz viver com o orçamento apertado, dependendo do salário para cobrir as despesas mensais.
“A pressão econômica pesa sobre grandes decisões da vida adulta, como comprar um imóvel, se casar e ter filhos”, diz Yoshida, que conecta esse adiamento à postergação da busca por cargos de liderança. A dificuldade de adquirir a casa própria foi citada por 39% da geração Z entrevistada e 26% dos millennials no Brasil, índices que sobem para 51% e 40% no recorte global.
A executiva reforça que temas como cultura de trabalho flexível também foram fomentados por essas gerações. “Foram eles que elevaram o propósito e valores como fatores visíveis nas decisões de carreira. [...] Sabemos que, hoje, morar próximo ao trabalho é um fator de privilégio para muitos”, exemplifica.
No campo tecnológico, o Brasil aparece à frente das médias globais. Entre os respondentes brasileiros, 87% da geração Z e 91% dos millennials já usam inteligência artificial no dia a dia, e 80% e 83%, respectivamente, se sentem confiantes em sua aplicação. Mais de 90% dos participantes das duas gerações avaliam que a IA tem impactos positivos na vida pessoal e profissional. Além disso, 47% da geração Z e 55% dos millennials seguem buscando novas capacitações à medida que a tecnologia evolui.
Para Yoshida, o protagonismo brasileiro tem explicação. “A inteligência artificial não é só uma ferramenta de trabalho, é também uma forma de encontrar novas oportunidades de aprendizado e de carreira”, sugere. Por outro lado, o levantamento indica que parte dos respondentes acredita estar se adaptando à tecnologia mais rápido do que os próprios empregadores, o que, para a especialista, impõe um desafio às empresas.
Por fim, os jovens foram questionados sobre bem-estar emocional. De modo geral, 66% da geração Z e 70% dos millennials avaliam a própria saúde mental como boa ou muito boa em território nacional. Ainda assim, três em cada dez respondentes afirmam se sentir estressados quase o tempo todo, sobretudo por preocupações com a saúde e o bem-estar da família e com o futuro financeiro em longo prazo.
No ambiente de trabalho, a geração Z aponta as longas jornadas diárias (69%), a falta de reconhecimento (57%) e a falta de tempo para concluir tarefas (54%) como principais fatores de estresse. Apesar disso, 62% da geração Z e 65% dos millennials dizem se sentir pouco confortáveis para falar sobre o tema com o gestor.
A executiva recomenda que as empresas se aproximem dos trabalhadores. “O primeiro ponto é conhecer seus colaboradores, suas demandas e necessidades. Ouvir o que os funcionários têm a dizer, conhecer suas percepções e levar a saúde mental a sério”, sugere. Para ela, os resultados mostram que as companhias já caminham nessa direção. “Agora a questão é evoluir esses insights e criar ambientes cada vez mais acolhedores e engajadores”, pontua.
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