A partir de maio deste ano, a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) passa a reconhecer oficialmente os chamados riscos psicossociais, levando a saúde mental do campo do discurso para o centro das obrigações legais das empresas. O tema deixa de ser apenas uma pauta de bem-estar e passa a ser tratado como questão de negócio, sujeita a auditorias, fiscalização e multas.
“A NR-1 é, hoje, uma resposta de socorro para um cenário de adoecimento coletivo, principalmente ligado à saúde mental”, afirma a advogada trabalhista Yara Leal Girasole.
O avanço dos afastamentos por transtornos psicológicos, segundo a advogada, tornou inevitável a ampliação do conceito de segurança no trabalho, especialmente após a pandemia.
O alerta não é apenas local. No cenário global, a Organização Mundial da Saúde estima que ansiedade e depressão provoquem a perda de cerca de 12 bilhões de dias úteis por ano, gerando um impacto econômico de aproximadamente US$ 1 trilhão. No Brasil, os números também chamam atenção: só em 2024, o INSS concedeu cerca de 470 mil licenças médicas por transtornos mentais — o maior volume registrado na última década.
O custo do adoecimento, que por muito tempo ficou invisível, passou a pesar diretamente no bolso das empresas. Um estudo da Robert Half mostrou um avanço expressivo no uso de medicamentos para lidar com estresse, ansiedade e burnout no trabalho. Entre líderes, o consumo de fármacos saltou de 18% em 2024 para 52% em 2025. Entre os profissionais liderados, o índice subiu de 21% para 59% no mesmo período.
Na avaliação de especialistas, a mudança promovida pela NR-1 representa uma ampliação de um princípio que já estava previsto na legislação.
“A Constituição de 1988 já dizia que o empregador tem a obrigação de oferecer um ambiente de trabalho seguro. O que acontece agora é uma expansão desse conceito, que sempre foi interpretado quase exclusivamente pelo ponto de vista físico”, conta Girasole.
Até aqui, a norma esteve muito associada à prevenção de acidentes, ao uso de equipamentos de proteção individual e a riscos tangíveis. A partir de maio de 2026, as empresas também precisarão responder por fatores como estresse crônico, sobrecarga emocional, falta de clareza de papéis, metas irreais, ambientes de medo e relações deterioradas — elementos que, embora silenciosos, afetam diretamente o desempenho e a saúde dos profissionais.
Esse novo olhar se materializa principalmente no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), que passa a exigir a inclusão explícita dos riscos psicossociais.
“O PGR deixa de ser um documento técnico restrito à segurança física e passa a refletir a cultura da empresa. Não basta reconhecer que uma área tem alto nível de estresse. Será preciso demonstrar quais ações estão sendo adotadas para reduzir esse risco”, afirma a advogada.
As penalidades previstas variam conforme o porte da empresa e a gravidade das falhas encontradas, mas o impacto vai além das multas. Problemas de reputação, clima organizacional deteriorado e queda de produtividade entram na conta — e a liderança passa a ocupar papel central nesse processo.
Para atender às novas exigências, especialistas defendem que será necessário investir no letramento emocional das lideranças.
“Falar de risco psicossocial é falar de habilidade relacional, energia psíquica, qualidade das conversas, conflitos produtivos e também dos silêncios organizacionais”, afirma a psicóloga organizacional Patricia Ansarah, fundadora do Instituto Internacional de Segurança Psicológica (IISP).
Segundo ela, a NR-1 exigirá métodos de escuta mais sofisticados do que as tradicionais pesquisas de clima e engajamento. Entram no radar práticas como canais seguros de denúncia, análise qualitativa de relações de trabalho e treinamentos contínuos para líderes, capazes de identificar sinais precoces de adoecimento nas equipes.
A chegada da nova NR-1 ocorre em um momento em que a relação das pessoas com o trabalho já passa por uma transformação profunda. A 24ª edição da pesquisa Carreira dos Sonhos, conduzida pela Cia de Talentos, mostra que o bem-estar assumiu o espaço que antes era ocupado pelo próprio trabalho como principal prioridade profissional.
“O foco não está mais em amar o trabalho, mas em trabalhar de forma sustentável para viver bem. O trabalho virou meio para alcançar o bem-estar, não mais um fim em si mesmo”, afirma Danilca Galdini, sócia-diretora de Pessoas & Cultura e Insights da consultoria.
De acordo com o estudo, estabilidade financeira, flexibilidade, autonomia e tempo para a vida pessoal aparecem hoje no topo das prioridades.
“O sucesso passou a ser sinônimo de colocar a vida no centro. O bem-estar virou autocuidado, poder e status”, diz Galdini.
Essa mudança não é exclusiva do Brasil. Países como Dinamarca e Finlândia já avançaram em normas específicas de saúde mental no trabalho. O Japão reconheceu o burnout como doença ocupacional antes mesmo de o tema ganhar força por aqui. França, Espanha e Reino Unido também vêm testando novos modelos de jornada, como a semana de 35 horas ou a escala 4x3.
Nesse contexto, a atualização da NR-1 marca uma virada simbólica no país: o cuidado emocional deixa de ser apenas uma boa prática e passa a integrar oficialmente as responsabilidades das empresas. Para organizações que desejam se manter competitivas, a mensagem é clara — saúde mental não é mais opcional, é parte da gestão de riscos.
Voltar para a listagem de notíciasCliente desde 1990
Cliente desde 2018
Cliente desde 1991
Cliente desde 1993
Cliente desde 1987
Cliente desde 1999
Cliente desde 1998
Cliente desde 1999
Cliente desde 1991
Cliente desde 2015
Cliente desde 2013